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Você não sofre pelos seus pais. Você sofre pela imagem que criou deles.

  • Foto do escritor: Dra. Gabriela Pires
    Dra. Gabriela Pires
  • 30 de mar.
  • 3 min de leitura
Hilma af Klint — The Ten Largest, 1907
Hilma af Klint — The Ten Largest, 1907

Quando a relação não é com o outro — mas com uma imagem interna

Existe um momento na vida em que algo começa a se deslocar dentro de nós.

Um desconforto sutil, às vezes difícil de nomear.

É quando começamos a perceber que talvez nunca tenhamos tido o pai ou a mãe que imaginávamos.

E isso não significa, necessariamente, que eles não estavam presentes.

Mas que, dentro de nós, existia uma expectativa que eles nunca poderiam sustentar.

A origem invisível das expectativas

Essa expectativa não nasce de forma consciente.

Ela se forma muito cedo, em um momento em que a psique ainda está organizando suas primeiras referências de segurança, vínculo e pertencimento.

A criança precisa sentir que existe alguém que sustenta, que protege, que reconhece.

E, muitas vezes, essa necessidade dá origem a imagens internas idealizadas.

Na psicologia analítica de Carl Gustav Jung, podemos compreender essas imagens como dimensões arquetípicas.

Ou seja, não estamos lidando apenas com os pais reais.

Estamos lidando com imagens internas carregadas de intensidade psíquica, sentido e expectativa.

O problema não é o outro — é a sobreposição

O sofrimento começa quando essas imagens internas se sobrepõem à realidade.

Quando, sem perceber, deixamos de nos relacionar com quem nossos pais são —e passamos a nos relacionar com quem precisávamos que eles fossem.

E aqui nasce um tipo de relação impossível.

Porque nenhuma pessoa real consegue sustentar uma imagem idealizada.

Isso pode se manifestar de diferentes formas:

  • frustração constante

  • afastamento emocional

  • tentativas repetidas de mudar o outro

  • sensação de nunca ser suficientemente visto ou compreendido

Mas, por mais que essas estratégias tentem resolver o problema, elas não tocam o ponto central.

Porque o conflito não está apenas no outro.

Ele está na distância entre a imagem interna e a realidade.

Como isso se repete nas relações

Quando essa dinâmica não é reconhecida, ela não fica restrita à relação com os pais.

Ela se desloca.

Passa a aparecer nas relações amorosas, nas amizades, nos vínculos profissionais.

Começamos a esperar dos outros algo que, na verdade, pertence a uma expectativa muito mais antiga.

Mais profunda.

Mais inconsciente.

E, então, as relações se tornam exigentes, frustrantes ou distantes.

Não porque o outro necessariamente falha —mas porque está sendo colocado em um lugar que não corresponde à sua realidade.

O corpo também participa dessa história

Essa não é apenas uma experiência psicológica.

É também uma experiência corporal.

O corpo registra essas expectativas, essas frustrações, essas tentativas de adaptação.

Ele responde não apenas ao que está acontecendo no presente, mas também às memórias implícitas e às experiências não simbolizadas.

Por isso, muitas vezes, o que se sente em uma relação parece maior do que a situação atual.

Mais intenso.Mais reativo.Mais difícil de regular.

Porque não se trata apenas do agora.

Trata-se de algo que vem de antes — e que ainda não pôde ser elaborado.

O movimento mais difícil: ver

O amadurecimento psíquico não passa por culpar os pais.

Passa por algo mais complexo — e mais transformador.

Ver.

Ver quem eles realmente são.

E, ao mesmo tempo, reconhecer aquilo que se esperava que eles fossem.

Esse é um processo delicado.

Porque envolve um tipo de luto.

O luto da imagem idealizada.

Da idealização para a relação real

Quando essa imagem começa a se desfazer, algo novo pode surgir.

Uma relação mais possível.

Mais humana.

Menos carregada de exigência.

E, paradoxalmente, mais próxima.

Isso não significa que a relação se torna perfeita.

Mas que ela se torna real.

E é na realidade — não na idealização — que a transformação pode acontecer.

Um caminho de integração

Talvez o caminho não seja encontrar os pais que faltaram.

Mas reconhecer as imagens que foram construídas dentro de nós.

E, a partir disso, construir novas formas de relação — com os outros e consigo mesmo.

Esse movimento não é rápido.

Mas ele é profundamente transformador.

Porque, ao sair da relação com a imagem, abre-se espaço para uma relação com o real.

E isso muda tudo.

🌿 Sobre a autora

Gabriela PiresPsicóloga | Supervisora ClínicaPrograma ISIS de Desenvolvimento ClínicoJung, Sistêmica e Neurociência

📲 WhatsApp: 11 98384-3456

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